A Aracruz iniciou ontem as negociações com 13 bancos credores em transações de derivativos de câmbio que lhe proporcionaram uma exposição vendida em dólar de US$ 6,26 bilhões por meio dos contratos de "target forward" e de opções vinculadas a pré-pagamentos de exportação. O JPMorgan, o Deutsche, o Itaú BBA, o Goldman Sachs, o Citigroup, o Merrill Lynch, o Calyon, o BNP Paribas, o Barclays, o Santander e o ING estão entre eles. O Lehman Brothers, que entrou em concordata em 15 de setembro último, também tinha posições em derivativos com a Aracruz no mercado externo.
Em reunião com os bancos, Pércio de Souza - sócio diretor da Estáter, butique de fusões e aquisições-, que está representando a Aracruz nas negociações, disse que a empresa não teria condições de cumprir os contratos e pagar as perdas como estava acordado inicialmente. Disse que a situação é atípica e que o fluxo de caixa operacional da empresa se mantém forte. A companhia sinalizou claramente que procura uma solução de consenso.
Os bancos se mostraram dispostos a alongar os prazos de pagamento para que a empresa possa honrá-los, renegociando as dívidas. Mas não aceitam corte no valor de face. Argumentam que repassaram as posições para o mercado e têm de arcar com depósitos de margem na BM&F e ajustes. Além disso, se houver corte no valor de face da dívida, os bancos terão de baixar parte dela como prejuízo. Um alongamento de prazos traz perdas para os bancos, mas menores.
Apesar da boa disposição entre as partes, uma das dificuldades para achar uma solução para a empresa é a falta de dólares no mercado e falta de linhas de crédito. Com caixa de US$ 594 milhões em 30 de setembro, a empresa não teria como desmontar as posições agora, pois não teria como repor seu caixa. Além disso, em meio à forte crise internacional, se for desmontar suas posições a Aracruz vai pressionar mais o mercado de câmbio.
Há bancos que sugerem uma atuação do Banco Central. Outros bancos argumentam que os acionistas da Aracruz poderiam fazer uma injeção de capital na empresa para ajudá-la neste momento de maior dificuldade.
Hoje, haverá uma nova reunião entre as partes. Os bancos esperam que a Aracruz venha com algum tipo de proposta concreta, após reunião de Pércio de Souza com os membros do conselho da Aracruz. Outra das dificuldades da negociação é a liquidação mensal prevista nos derivativos da empresa, que será também objeto de debate.
O mercado acompanha atentamente as negociações entre a Aracruz e seus credores, pois é uma das maiores exposições vendidas em dólar neste momento de maxidesvalorização do real - US$ 4,1 bilhões em "target forward" (com alavancagem de dois para um) mais opções de US$ 2,16 bilhões vinculadas a um pré-pagamento à exportação. Seu caso deverá servir de exemplo para os demais.
Os bancos têm procurado juntar documentos para se armar contra ações na Justiça de empresas que venham a contestar perdas. Já houve duas liminares obtidas para não-pagamento da variação cambial - uma do banco Credibel, do Grupo Splice, contra o Itaú BBA e outra de uma empresa calçadista do Sul do país contra o HSBC. Há empresas que têm conseguido renegociar as perdas.