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Após vitória, Obama já busca conter a enorme expectativa
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Eleição nos EUA: Em discurso da vitória, presidente eleito destaca dificuldades, mas promete "chegar lá"

Após vitória, Obama já busca conter a enorme expectativa


    Ricardo Balthazar, de Washington
    06/11/2008
Texto: A- A+
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AP
Foto Destaque
O presidente eleito dos EUA, o democrata Barack Obama, durante o discurso da vitória, na noite de terça, em Chicago

Barack Obama carregava ontem o peso do mundo sobre os ombros, um dia depois de vencer a épica batalha pela Presidência dos Estados Unidos. Multidões foram às ruas celebrar sua vitória em lugares tão distantes como Chicago e Kogelo, o vilarejo do Quênia onde vive sua avó paterna. Líderes das maiores potências do globo o exaltaram pelo triunfo.

Depois de comemorar a vitória com um discurso sóbrio, no qual prometeu unir o país e fez questão de realçar as dificuldades que estão à sua frente, Obama passou o dia trancado com assessores para discutir seus próximos passos. Ele deve indicar nas próximas horas os futuros ocupantes de posições-chave do seu governo, incluindo o próximo secretário do Tesouro.

Obama foi eleito com 63,68 milhões de votos, cerca 52,4% do total. A eleição de terça-feira teve os maiores níveis de participação popular (comparecimento de 65% às urnas) desde a década de 60 nos EUA, onde ninguém é obrigado a votar. Milhões de jovens e negros que nunca tinham participado da política foram votar em Obama, um político de carreira meteórica que era quase um desconhecido antes de lançar sua candidatura.

Aos 47 anos de idade, filho de pai africano e mãe branca e americana, Obama será o primeiro negro a ocupar a Presidência dos EUA. Sua eleição representa o rompimento de uma barreira histórica para uma sociedade que até hoje não conseguiu curar as feridas que a escravidão, o preconceito e a segregação racial abriram em seu passado. A posse de Obama está marcada para o dia 20 de janeiro.

Foto Destaque

"A estrada à frente será comprida. Nossa subida será íngreme", disse Obama na noite de terça-feira, num discurso para uma multidão calculada em 125 mil pessoas em Chicago. "Podemos não chegar lá em um ano ou mesmo em um mandato. Mas, América, eu nunca estive mais esperançoso do que nesta noite de que nós vamos chegar lá. Eu prometo a vocês. Nós, como um povo, vamos chegar lá."

A eleição de terça-feira também serviu para reforçar o controle que os aliados de Obama terão sobre o Congresso americano, ampliando as bancadas do Partido Democrata na Câmara dos Deputados e no Senado. Mas seus adversários no Partido Republicano conservaram um número de cadeiras suficiente para bloquear as iniciativas dos democratas com manobras legislativas no plenário do Senado.

No discurso da vitória, Obama disse que seu partido deveria receber os resultados da votação "com uma dose de humildade" e exortou aliados a "curar as divisões que têm atrasado nosso progresso". Obama prometeu na campanha que irá mudar a maneira como se faz política nos EUA. Assessores dizem que ele deve indicar ao menos um republicano para um cargo no primeiro escalão do governo.

O principal assessor do novo presidente na Casa Branca deverá ser o deputado democrata Rahm Emanuel, do mesmo Estado que Obama representa no Senado, Illinois. Se confirmado, ele terá a responsabilidade de comandar a máquina administrativa no dia-a-dia, exercendo funções semelhantes às do ministro da Casa Civil no Brasil.

Para o Tesouro, o mais cotado ontem parecia ser o ex-secretário Lawrence Summers, que ocupou a função no fim do governo do ex-presidente Bill Clinton. Summers leciona na Universidade Harvard e é sócio de um fundo de investimentos que administra US$ 36 bilhões em ativos, o D. E. Shaw & Co. Outro nome citado é o do presidente da regional de Nova York do Federal Reserve, o banco central americano, Timothy Geithner.

A disposição de Obama para dialogar com a oposição enfrentará em breve seu primeiro teste. Os democratas estão preparando no Congresso um novo pacote de estímulo fiscal para injetar ânimo na economia americana. Algumas propostas prevêem gastos de até US$ 300 bilhões, incluindo investimentos em obras públicas e ajuda para desempregados e Estados cujas finanças foram abaladas pela crise econômica.

A Casa Branca reluta em apoiar o pacote, e os republicanos têm indicado que poderão exigir concessões dos democratas para aprová-lo. A deputada democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara, pediu ontem que os adversários não usem a força que ainda têm no Senado para frear o avanço do plano. O presidente George W. Bush prometeu ontem ao sucessor que ele terá "total cooperação" de seu governo na transição até a posse.

A eleição de Obama reconfigurou o mapa político americano. Os democratas ganharam terreno em vários redutos tradicionais dos republicanos, onde os eleitores são mais conservadores que a média nacional. A impopularidade do governo Bush e as mudanças sofridas pelo eleitorado nos últimos anos, como a maior participação de jovens, negros e hispânicos, ajudaram Obama a mudar o jogo.

Alguns analistas acreditam que esse realinhamento do eleitorado poderá manter os democratas no poder por muito tempo, uma façanha que o partido só conseguiu realizar duas vezes, durante a Grande Depressão dos anos 30 e na década de 60. Na última vez em que os democratas controlaram a Casa Branca e o Congresso ao mesmo tempo, no início do governo Clinton, a alegria durou apenas dois anos.

Mas muitos observadores acreditam que a boa vontade do eleitorado com Obama e os democratas é mais um reflexo do carisma do candidato, e da insatisfação do eleitorado com Bush e com a economia, do que um endosso da filosofia democrata. Se esses analistas estiverem certos, o apoio aos democratas irá evaporar rapidamente se as dificuldades que o novo presidente encontrará para administrar as enormes expectativas geradas na campanha se revelarem insuperáveis nos próximos meses.

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