"Se a desaceleração da economia continuar por muito tempo, até os bancos da AL vão carregar ativos tóxicos"
O prolongamento da recessão mundial ameaça criar riscos significativos até mesmo para bancos que hoje parecem sólidos e não foram contaminados pela crise de confiança que abalou o setor financeiro nos países avançados, disse o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. "A América Latina não tem uma crise bancária hoje, mas tem uma crise financeira", disse ele na tarde de terça-feira, em uma entrevista para o Valor e outros três jornais latino-americanos. "Se a desaceleração da economia continuar por muito tempo, até os bancos da América Latina vão carregar ativos tóxicos".
Ele teme que o aprofundamento da crise submeta instituições financeiras que hoje estão em boa situação, como as brasileiras, a pressões semelhantes às enfrentadas pelos bancos americanos, com os problemas no mercado imobiliário e o aumento da inadimplência. "Não é o caso hoje, mas essa é uma possibilidade", alertou.
O FMI reviu de maneira drástica suas projeções para a economia global e previu ontem que o Brasil sofrerá uma contração de 1,3% neste ano. As previsões da instituição para o país são bem mais pessimistas do que as feitas pelo governo e por muitos bancos brasileiros. Na avaliação do Fundo, o impacto da crise tem sido subestimado pelo governo e pelos bancos nacionais.
"Não é que o Brasil esteja particularmente fraco", disse o diretor-adjunto do departamento de pesquisa do FMI, Charles Collyns, na apresentação da nova edição do relatório semestral sobre o cenário econômico global. "As projeções para o Brasil foram rebaixadas em linha com nossas projeções para a economia mundial". Em janeiro, o FMI previa que o Brasil cresceria 1,8% neste ano.