Crise abre caminho para o Brasil perseguir uma inflação menor sem exigir sacrifícios da política monetária
A crise financeira internacional abre caminho para o Brasil perseguir uma inflação menor sem exigir sacrifícios adicionais da política monetária. Esse é um dos pontos de vista nas discussões dentro do governo para a definição da meta de inflação de 2011. "A questão é se vamos ficar pelo sétimo ano seguido com uma meta de 4,5%", diz uma fonte que acompanha os debates.
O Conselho Monetário Nacional (CMN) decide na sua reunião do próximo mês a meta de 2011. O que está em jogo é o objetivo central da política monetária no primeiro ano de mandato do próximo presidente da República, que será eleito no ano que vem.
A experiência de Israel, que aproveitou uma grave recessão no início da década para reduzir permanentemente seu patamar de inflação, é uma referência no debate dentro do governo. Um dos pontos de vista é que, com a crise financeira, o Brasil deve abrir mão de buscar objetivos mais ambiciosos, pois já sofre as consequências da retração econômica. Outro ponto de vista é que, justamente por causa da recessão, a meta pode ser menor, sem sacrifícios. "As duas coisas andam juntas, não são antagônicas", afirma um técnico.
"Sugiro que o Brasil faça progressos, mas em um processo muito moderado e gradual", disse ao Valor o professor Leonardo Leiderman, da Universidade de Tel Aviv. Em 2011, recomenda, a meta poderia ser de 4,25%. No ano seguinte, de 4%, e no outro de 3,75%, e daí por diante. "Cedo ou tarde, teremos um aumento da inflação global", afirma Leiderman. "O Brasil deve ser cauteloso para não exagerar".
A Turquia, que persegue uma inflação de 7,5%, é um dos raros países com meta maior que a do Brasil. Mas a inflação mais alta é vista como temporária. Até 2006, sua meta era de 4%. Como a inflação saiu do controle, a Turquia estabeleceu uma trajetória para o índice voltar a nível mais civilizado. Colômbia, México, Peru e Chile, países com políticas macroeconômicas consistentes, têm metas de inflação menores que a do Brasil.