Somente a forte polarização política pode explicar a infelicidade de campanhas como a perpetrada pelo PPS, o antigo Partidão (PCB), em relação às mudanças, em estudo no governo, nas regras de correção da caderneta de poupança. As alterações são necessárias, decorrem de uma novidade da economia brasileira - a convergência da taxa básica de juros (Selic) para padrões internacionais -, mas foram vendidas à população pelo respeitável partido como um possível confisco à la Collor.
Questionado, o deputado Raul Jungmann (PPS-PE) disse que foi mal interpretado. Ele afirmara, no horário político do PPS, que o governo vai mexer na poupança, "como fez o governo Collor". Ora, o que Collor fez, em 1990, foi o confisco puro e simples não apenas da poupança e das aplicações financeiras em geral, mas também dos depósitos à vista de quem tinha conta em banco. Não há erro de interpretação. Envolvido pelo clima de Fla-Flu existente no país, Jungmann sugeriu, em rede nacional de televisão, que Lula repetiria Collor.
Mexer na poupança é uma coisa; confiscar depósitos é outra completamente diferente. Ou o governo, com a autorização do Congresso, altera a forma anacrônica de correção da poupança ou o Banco Central não poderá mais reduzir a taxa de juros, sob pena de inviabilizar o financiamento do Estado brasileiro e provocar grande distúrbio no mercado financeiro.
Todos os governos que vieram antes de Lula se queixaram da irracionalidade com que o PT os atacavam - para ficar apenas em dois exemplos históricos, os petistas ameaçaram não assinar a Constituição de 1988, que hoje tanto defendem, e fizeram oposição cerrada ao Plano Real. O que não é aceitável é que hoje, na oposição, os representantes daqueles governos apelem para o mesmo expediente. Afinal, quando vamos evoluir?
O PT, por sua vez, repete os erros do passado. Nem a experiência de quase sete anos de exercício do poder lhe deu perspectiva para mudar certos comportamentos. Um deles é não se conciliar com a política econômica que Lula herdou de seu antecessor e, de forma pragmática, fortaleceu-a, ajudando a tirar o país da crise de 2002/2003 e a colocá-lo na rota do crescimento sustentável - antes da crise atual, forjada lá fora, o Brasil vinha crescendo quase 7% ao ano, com a inflação sob controle.
Outra dificuldade do PT é conviver com a crítica. Há 20 dias, o governo decidiu trocar o comando do Banco do Brasil, gerando suspeitas de que, a partir dali, haveria ingerência política escancarada na gestão da instituição bicentenária. Em dois dias, as ações do banco caíram 10%. Cinco dias após as mudanças, o novo presidente do BB, Aldemir Bendine, participou de teleconferência com investidores. Nos dias seguintes, o mercado se acalmou e, desde então, a ação se recuperou - até o meio-dia de ontem, o papel do BB havia registrado valorização de 28,54% em 2009, face a 21,22% do Ibovespa no mesmo período e bem superior a seus concorrentes privados.
Ainda é cedo para avaliar a nova gestão do BB, deve-se dar um crédito de confiança a Bendine e sua equipe, mas é justificável que o mercado desconfie das intenções do governo, afinal, na comunicação das mudanças no banco, afirmou-se que, dali em diante, os spreads bancários cairiam de forma acelerada. Irritado com as críticas, o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), teve reação desproporcional às ponderações feitas pela jornalista Míriam Leitão. Segundo ele, "o governo não é o dono do BB, mas o Estado brasileiro é o acionista amplamente majoritário". Quem compra ações do banco, diz, "sabe disso, sabe inclusive que é um banco que não quebra".
O BB não quebra, mas esfola. Em 1995, não fosse uma injeção de R$ 8 bilhões (na época, soma equivalente a US$ 8 bilhões) no capital do banco, ele teria fechado as portas. Seis anos depois, uma nova capitalização, esta de R$ 4 bilhões, foi feita para ajudá-lo a fechar as contas. As duas capitalizações aumentaram a dívida pública em R$ 12 bilhões, a um custo que se sabe considerável. A ideia de que o banco não quebra porque é sempre salvo pelo Tesouro não pode justificar uma administração temerária, afinal, o capital majoritário do BB não pertence ao PT nem ao governo Lula, mas à sociedade brasileira por meio do Tesouro Nacional.
Foi o governo, já na gestão Lula, que fez ofertas públicas de ações do BB para atrair investidores e, assim, forçar uma melhora nos seus padrões de governança - quanto mais democratizado é o capital de uma empresa nos dias atuais, maior é a chance de ela ser bem administrada. Em sua diatribe, no entanto o deputado Berzoini questiona a necessidade de o BB buscar a maior rentabilidade para seus acionistas. "Onde está escrito isso?", indaga ele.
Ora, no momento em que decidiu democratizar o capital do BB, o governo prometeu aos futuros acionistas zelar por seu investimento, assegurando-lhes o maior rendimento. Ninguém compra ações de uma empresa, mesmo estatal, por amor à pátria ou para fazer filantropia. Se não acreditasse minimamente na promessa do governo de administrar bem o BB, os investidores teriam preferido comprar ações de bancos privados.
No fundo, Berzoini confirma a desconfiança de muita gente - se dependesse dele, os spreads do BB, indo na contramão de todo o mercado bancário, cairiam à primeira canetada. "Não há problema quando o acionista majoritário anuncia que tem diretrizes para a empresa que não se restringem à busca de remuneração para os acionistas", afirma Berzoini.
A insensatez dos últimos dias não parou por aí. Em meio aos escândalos das passagens aéreas no Congresso e à contenda pública entre os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, houve quem visse nisso uma "crise institucional". Um exagero, certamente, mas pior foi a sugestão feita por um famoso jornalista - a de que se feche o Congresso, afinal, essa instituição, alegou ele, não é imprescindível para o funcionamento da democracia.
Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.
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