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Tupi inaugura fase de investimentos no pré-sal brasileiro
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Infraestrutura: Não há experiência no mundo de exploração de petróleo a 300 quilômetros da costa

Tupi inaugura fase de investimentos no pré-sal brasileiro


    Cláudia Schüffner, do Rio
    30/04/2009
Texto: A- A+
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Leo Pinheiro/Valor
Foto Destaque
Mario Carminatti, o "gerente do pré-sal", que comanda uma equipe de 602 profissionais: "avanço no conhecimento"

O campo de Tupi, maior descoberta de petróleo do mundo nos últimos 30 anos e que começa a produzir 30 mil barris a 5,3 mil metros de profundidade nessa sexta-feira, será um divisor de águas para o Brasil. A partir dele o país pode finalmente ser não apenas auto-suficiente como também se tornar um exportador de petróleo, alimentando uma indústria de bens e equipamentos que o governo pretende atrair para o país. Junto com o início da operação-teste de Tupi chegam desafios tecnológicos, de investimento e, também, de regulação, e a busca pela redução de custos. Entre o início das pesquisas no pré-sal e Tupi, por exemplo, a estatal já reduziu em 50% o custo de perfurar um poço nestas áreas.

Mesmo sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja Tupi começa a produzir oficialmente amanhã em fase de testes que vão permitir aumentar o conhecimento sobre esse tipo de reservatório, cujas rochas têm peculiaridades antes desconhecidas pela indústria do setor. Somente em dezembro de 2010 terá início a produção de 100 mil barris/dia em um projeto piloto. Ele também fará com que duas estrangeiras sem produção relevante no Brasil, as sócias BG e Galp, se tornem grande produtoras no país.

O próximo teste de longa duração será feito em Iara (vizinho de Tupi). Depois virá Guará, no BMS-9, que tem como sócios BG e Repsol. A velocidade das próximas perfurações e projetos depende da chegada ao país de sondas capazes de perfurar grandes profundidades.

"O grande cerne de toda essa questão é o avanço no conhecimento da área. E isso só é possível à medida em que se fizerem os testes de avaliação e de produção. Já sabemos o potencial de produção dessa jazida desde que perfuramos o poço, o emblemático aqui é que o momento é de mudar fortemente o foco. Vamos passar da fase de exploração para a de investimentos", diz o geólogo Mario Carminatti, gerente executivo de exploração da Petrobras.

O plano estratégico da Petrobras prevê investimentos de US$ 174,4 bilhões até 2013. E em um horizonte mais longo, até 2020, a companhia prevê investimentos de US$ 111 bilhões apenas no pré-sal

Entre os dados importantes que trarão mais conhecimento estão variáveis como a produtividade e variações de pressão e temperatura do reservatório. "Todo o desenvolvimento tecnológico entra depois disso", explica Carminatti. Com mais conhecimento, será possível reduzir os custos milionários de produção em águas ultraprofundas. "Quanto mais conseguirmos prever o posicionamento dos reservatórios, mas barato será a exploração da área. Nosso objetivo é evoluir no modelo geológico para posicionar os poços e assim, precisar perfurar menos", diz o geólogo. O primeiro poço perfurado no pré-sal, justamente o de Tupi, custou US$ 240 milhões. Atualmente a Petrobras já consegue perfurar gastando até US$ 120 milhões, parte disso gasto com o aluguel de sondas como a Seadrill, uma das duas sondas que está em Tupi e que custa US$ 658 mil por dia pagos pela Petrobras e suas sócias BG e Galp.

O objetivo de baixar custos como esse envolve além de tecnologia e conhecimento sobre a geologia da área (que permite economizar semanas de aluguel) também envolve negociações duríssimas com a indústria de equipamentos e serviços. Carminatti comanda um grupo de 602 funcionários da área de exploração que tem 154 geólogos e 185 geofísicos. Ali as apostas são feitas muito antes.

O executivo diz que comanda uma área que "tem responsabilidade com o futuro da empresa". É ali que se definem as áreas com potencial (que depois serão disputadas em leilões) e, principalmente, o melhor local para perfurar a partir de estudos de modelos geológicos onde um leigo vê apenas traços e ondas. Um poço seco, no jargão da indústria, pode significar uma perda de US$ 50 milhões a US$ 100 milhões. "Convivemos com o risco o tempo todo. Ele exige um nível de adrenalina muito grande, assim como grandes doses de humildade e conhecimento de ciências naturais. Aqui é preciso ser estudioso e enxergar os erros como um aprendizado", diz Carminatti.

Devido à grande distância dos campos do pré-sal de Santos da costa brasileira, que ficam a cerca de 300 quilômetros, a Petrobras montou grupos de trabalho e de pesquisas para baratear custos de operação. Não há experiência no mundo de produção em larga escala a essa distância e o modelo de sucesso da bacia de Campos já não serve como parâmetro. A Petrobras é a que produz maiores volumes em águas profundas entre todas do mundo e se diz preparada para enfrentar os novos desafios que se impõem.

Guilherme Estrella, diretor de exploração e produção da Petrobras, conta que já pediu estudos sobre a possibilidade de instalação de plataformas desabitadas nos campos do pré-sal de Santos, o que poupará custos com pessoal, vestuário, alimentação e energia para manter centenas e até milhares de pessoas embarcadas por muito tempo. E adianta que executivos da companhia já estão contatando universidades brasileiras para o projeto, que no momento não é possível. "Mas temos que pensar nisso para 2015 em diante", frisa.

Tupi foi a primeira grande descoberta da Petrobras na camada pré-sal da bacia de Santos que se mostrou uma província petrolífica de volumes consideráveis. Sozinho ele tem entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris de petróleo recuperáveis, o que representa entre 38% e 61% das reservas existentes no país até agora e que demoraram 56 anos para serem descobertas.

O petróleo de Tupi e dos outros campos do pré-sal ainda não podem entrar na contabilização de reservas da Petrobras porque as áreas ainda estão no período de avaliação. Só depois dessa fase a companhia terá que entregar à Agência Nacional do Petróleo (ANP) uma declaração de comercialidade. No caso de Tupi isso terá que acontecer até dezembro de 2010. Em Iara, descoberto no mesmo bloco, o prazo vence em dezembro de 2013.

Estimativas extra-oficiais divulgadas inicialmente apontavam volumes recuperáveis de petróleo da ordem de 70 bilhões a 90 bilhões de barris na faixa de pré-sal que se estende pelas bacias do Espírito Santo, Campos e Santos. Depois de muita polêmica e dada a impossibilidade de se prever volumes sem perfurar as áreas, as estimativas oficiais agora não são divulgadas.

O volume de reservas no pré-sal é a pergunta que vale US$ 1 milhão mas que ninguém a responde na Petrobras. A companhia informa apenas que estima reservas de 5 a 8 bilhões de barris em Tupi, entre 3 e 4 bilhões de barris em Iara e de um a dois bilhões de barris em Jubarte, que fica em uma área da bacia do Espírito Santo chamada Parque das Baleias. Foi lá, no campo de Jubarte, que a Petrobras começou oficialmente a produzir petróleo do pré-sal no ano passado.

Mesmo sem estimativas, ninguém duvida que o pré-sal tem muito petróleo e gás "guardado" criteriosamente pela natureza. Em cima dos reservatórios têm mil metros de sedimentos e uma camada espessa de 2 mil metros de sal. Essa capa de sal ajudou a manter as condições geológicas para o desenvolvimento dos reservatórios e evitou que o petróleo fluisse para cima (em direção à superfície do mar), o que também o tornaria mais denso e pesado.

Perto de Tupi já foram perfurados poços que permitiram encontrar os reservatórios de Iara, Carioca, Guará, Parati, Bem-Te-Vi, Caramba, Júpiter, Iguassu e Azulão, sendo esse último encontrado no BM-S-22, o único bloco do pré-sal operado por uma estrangeira, a Exxon. Os restantes são operados pela Petrobras, que transferiu em alguns casos a operação durante a fase exploratória para sócias. É o caso da BG no BM-S-52, onde foi anunciada recentemente a descoberta de Corcovado.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai mais à extração do petróleo na camada pré-sal de Tupi, prevista para amanhã, no Rio. Lula estará na cidade, participará da cerimônia festiva em terra, na Marina da Glória, mas não irá até o local da extração, por questões de segurança. A instabilidade meteorológica nos últimos dias está provocando ondas de até cinco metros de altura em alto-mar e a segurança vetou a viagem de 14 horas de navio até o local. "Ele está absolutamente frustrado. Lastimou muito por determinação da segurança, o que é normal. O desejo dele era ir de qualquer maneira", afirmou o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. (Colaborou Paulo de Tarso Lyra, de Brasília)

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