"As ações não estão baratas para o mundo que temos pela frente sem alavancagem e com muita regulamentação. Elas podem estar baratas se considerarmos o mundo do passado e que não existe mais..." Esse é um trecho de um relatório divulgado na semana passada pelo diretor de gestão da Pimco - uma das maiores administradoras de recursos de terceiros do mundo -, Bill Gross. Ao longo de quatro páginas o gestor aponta motivos econômicos, políticos e psicológicos dos investidores que, para ele, são mais do que suficientes para todos acreditarem que o mundo se deteriorou muito. Portanto, a queda dos ativos é mais do que natural, para adaptar os seus preços a um cenário que deixou de ser cor-de-rosa.
O sócio da Pentágono Asset Management, Marcelo Ribeiro, concorda com os argumentos de Gross, para infelicidade dos investidores. Muitos deles se agarram à tese ou à esperança de que, como os mercados já caíram muito, o certo seria começarem a se recuperar. Em alguns casos isso se manifesta até sob a forma de um sentimento de justiça: "poxa, eu (o investidor) já perdi tanto que agora a bolsa deveria subir para compensar todo o meu sofrimento".
"O mundo mudou muito nos últimos meses e o cenário de prosperidade que justificava as projeções do Índice Bovespa em 85 mil pontos não existe mais", diz Ribeiro. O simples processo de redução do endividamento (a desalavancagem) do sistema bancário mundial, um dos primeiros efeitos dessa crise, já justifica uma queda relevante no valor dos ativos. Com menos, muito menos dinheiro, as empresas investem e produzem menos, portanto, têm lucros bem mais magros e suas ações passam a refletir tal situação. Na outra ponta dessa relação estão os bancos, que também passam a faturar menos reduzindo os empréstimos. Sem contar todos os calotes que já tomaram referentes aos recursos que emprestaram ainda antes da crise.
"Diferentemente do que muitos acreditam, essa não é uma crise americana, mas uma crise de crédito, que apenas começou nos EUA, e é resultado de vários anos de uma alavancagem desmedida do sistema bancário mundial", diz o sócio da Pentágono. Segundo dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS), no fim da década de 80, os empréstimos representavam uma vez o Produto Interno Bruto (PIB) global, enquanto que até um pouco antes dessa crise eles estavam 12 vezes acima do PIB. Essa é uma pequena mostra de como o mundo passou as últimas duas décadas adquirindo um carnê atrás do outro sem saber se depois teria dinheiro para pagar a conta.
De credor a sócio
Outro reflexo da desalavancagem desorganizada é que muitos desses credores devem se tornar sócios das companhias como única forma de receber ao menos uma parte do dinheiro de volta. Uma das conseqüências será a diluição do capital dos demais acionistas, o que obviamente significará a desvalorização dessas ações no mercado. É de se esperar que um dos efeitos colaterais dessa crise seja o excesso de regulamentação no sistema bancário do mundo inteiro, impedindo que as companhias voltem a se endividar como antes. "Sem dinheiro as empresas não terão fôlego para fazer investimentos, o que em última instância se traduzirá em lucros menores, portanto, ações muito mais baratas", explica Ribeiro.
Por fim, com todos os pacotes fiscais implementados pelos governos do mundo inteiro para reativar a economia o quanto antes não é difícil imaginar que terão de aumentar a cobrança de impostos, como uma das formas de financiarem essa política expansionista. "A conta é simples: pagando mais impostos sobra menos para as empresas e mais uma vez esse movimento irá bater nas ações", raciona o sócio da Pentágono.
A pergunta de um milhão de dólares agora é saber se a queda de 52% do Ibovespa desde sua máxima histórica, em 20 de maio deste ano, - exatamente o mesmo nível de perdas que os mercados tiveram no primeiro ano da Grande Depressão que começou em 1929 - já não reflete esse novo cenário econômico muito mais adverso. É impossível encontrar alguém que tenha essa resposta. De qualquer forma, o palpite de Ribeiro é que a tendência ainda é de queda principalmente porque as notícias boas ainda parecem longe.
Daniele Camba é repórter de Investimentos
E-mail: daniele.camba@valor.com.br