A agência de notícias France-Presse (AFP), uma das líderes do mundo da informação, está prestes a viver uma revolução "à la française". A agência é uma entidade "sui generis", um "ornitorrinco", segundo o presidente diretor-geral (PDG), Pierre Louette, encarregado pelo governo francês de elaborar um projeto de reforma.
O documento com as propostas para reformular a atuação da agência foi entregue aos ministérios da Economia, Orçamento e Cultura no fim de março e propõe a transformação da AFP numa "Sociedade Nacional de Capitais Públicos" com a criação de uma fundação que garanta sua independência editorial.
A agência não é pública, privada ou cooperativa mas regida por um estatuto de 1957 segundo o qual, a AFP não deve "em nenhuma circunstância passar sob controle de direito ou de fato, de um grupo ideológico, político ou econômico".
O novo desenho proposto para a agência sugere que ela pertença 100% a capitais públicos ou para públicos: a Caixa de Dépôts (CDC) - algo entre CEF e o BNDES - ou a Agência de Participações do Estado. Mas esta engenharia financeira pode esbarrar nas turbulências da recessão. A CDC, criada em 1816, fechou 2008 com o primeiro prejuízo da sua história: cerca de € 1,5 bilhão, cerca de R$ 4,5 bilhões.
Apesar de não ser pública - o que parte dos franceses ignoram -, o governo é o principal cliente da agência, sendo responsável por 40% do faturamento. Os terminais de notícias da AFP estão presentes em todas as esferas administrativas. Em 2008, a agência - que não tem capital próprio e é administrada de forma colegiada pelos clientes usuários - faturou cerca de 270 milhões de euros, uma alta de 4% sobre o resultado de 2007.
Por hora, o documento com as propostas é mantido em segredo até que o governo se pronuncie. Mas uma fonte que teve acesso ao texto revela que o principal executivo da agência propõe uma capitalização da ordem de 45 milhões de euros e um empréstimo de cerca de 20 milhões de euros. Segundo um comunicado de Louette, veiculado pela "intranet" da AFP, o aporte de capitais públicos garantirá o financiamento regular e o desenvolvimento da agência, que ambiciona transformar-se em um líder mundial de conteúdos de texto, foto, vídeo e infografia.
A "menina dos olhos" de Louette é o plano de modernização dos recursos na área de tecnologia. Assim, os clientes da AFP, em vez de acessarem apenas os textos, poderão clicar em hyperlinks, fotos, infográficos e vídeos (hoje, os serviços são compartimentados). O projeto deve estar concluído em cinco anos, com um custo estimado de 30 milhões de euros, dos quais a maior parte deve vir dos cofres públicos.
Diariamente, a AFP envia cinco mil textos e cerca de 1.700 fotos graças aos 2.300 funcionários permanentes espalhados por mais de 160 países e que abastecem os serviços em seis idiomas (francês, inglês, espanhol, português, alemão e árabe). A agência francesa deve manter sua cobertura jornalística em várias áreas - atividade pouco rentável em certos casos. Mas o plano de negócios de Louette prevê a aquisição de sociedades em áreas anexas, como internet, além de parcerias. A compra de outras empresas, contudo, traz lembranças de operações que não primaram pelo sucesso, como a da agência de informação financeira em inglês - AFX News - vendida em 2006.
O projeto de Louette revela ainda os contornos de uma fundação, algo como um conselho supremo, composto por altas personalidades (além de representantes dos empregados) com a missão de zelar pela independência da redação. A fundação deteria uma "golden share" - ação com direito de veto, principalmente no que tange ao capital.
O projeto, encomendado assim que Louette foi reeleito, no fim do 2008, inquieta os sindicatos. Eles temem que a criação de uma sociedade com fundos públicos seja a porta aberta para a privatização, como ocorreu, por exemplo, com a Gas de France, ou mesmo o fim de serviços menos rentáveis. Pairam dúvidas sobre a composição do conselho de administração da AFP e a forma de escolha do próximo presidente, cadeira hoje ocupada por um executivo sedutor face a seus interlocutores e que exibe resultados financeiros positivos. Na opinião de uma fonte que conhece os meandros da AFP, a proposta de Louette pode seguir três caminhos: ser engavetada (o que parece pouco provável); o executivo seria convocado para elaborar um novo estatuto para a agência; ou a questão iria para a Assembleia Nacional. Por ter sido criada através de uma lei e ser regida por um estatuto, qualquer mudança na AFP deve passar pelo crivo dos parlamentares.