| Yan Boechat/Valor |
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| Eliseu Fernandes, que era carregador de carvão em siderúrgica em Sete Lagoas, agora faz "bicos" como pedreiro |
Colombinas e pierrôs não serão recebidos com música, confetes, serpentinas ou belas rainhas neste Carnaval em Itabira e Sete Lagoas. Nos dois municípios, que figuram entre os dez mais ricos de Minas Gerais, nada de blocos carnavalescos, trios elétricos baianos ou mesmo uma simplória bandinha no coreto da praça. Até pode ser que alguns inconsolados órfãos de Momo saiam pelas ruas a batucar, mas não contem com a prefeitura para organizar a festa. A ordem dos prefeitos é simples e direta: esse ano não tem Carnaval. "Para situações drásticas são necessárias medidas drásticas", diz em tom solene o reeleito prefeito de Itabira, João Izael Coelho (PR), fazendo questão de destacar que o Carnaval foi uma das marcas de sua administração no primeiro mandato.
O cancelamento da festa mais popular do país pouco tem a ver com um surto de conservadorismo dos atuais prefeitos. É só um dos exemplos, talvez o único pitoresco, de como a pior crise econômica da história recente está atingindo duas cidades altamente dependentes da indústria mineral (caso de Itabira) e siderúrgica (Sete Lagoas). Desde que crise financeira internacional transbordou da esfera etérea das especulações e previsões para a vida real, as duas cidades já contabilizam a perda de mais de 7 mil empregos com carteira assinada.
Nos dois municípios, as demissões tiveram início nas grandes empresas exportadoras e começam a se alastrar por toda a cadeia econômica, do comércio aos serviços, da agricultura ao poder público. Líderes nos números relativos de dispensas em Minas, poucas cidades do país estão sentindo de forma tão aguda e tão profunda os efeitos da retração econômica mundial quanto esses dois pequenos municípios.
As duas cidades ainda não entraram em colapso econômico ou social porque a maior parte desses trabalhadores está recebendo o seguro-desemprego ou parcelas de suas rescisões. "É o que está salvando a cidade de problemas maiores", diz Gustavo Costa Paulino, secretário de Desenvolvimento Econômico de Sete Lagoas, onde o volume de dispensas chegou a casa das 5 mil em janeiro, sendo 3,8 mil metalúrgicos. "Ainda não estamos percebendo aumento da violência ou de distúrbios, mas se a coisa não melhorar até a março ou abril, não sei ao certo o que vai acontecer", diz Paulino, também dono de uma siderúrgica que produz ferro- gusa e que demitiu mais de 140 pessoas nos últimos meses.
É a esperança de que as coisas vão melhorar nos próximos meses que mantém o bom humor de Eliseu Fernandes Rodrigues, de 29 anos, os três últimos atuando como carregador de carvão em um alto-forno de uma siderúrgica que produz ferro-gusa em Sete Lagoas. "Agora o negócio é transformar salsicha em carne", diz ele, rindo. Eliseu, que vive com a mulher Leandra e o filho Arthur, de um ano e quatro meses, em uma casa simples de um bairro da periferia de Sete Lagoas, está vivendo do seguro-desemprego e dos bicos de servente de pedreiro, que lhe garantem R$ 25 por dia de trabalho.
Apesar de esperançoso, Eliseu, como a maioria dos 300 colegas que foram demitidos às vésperas do Natal, está assustado com os desdobramentos dessa crise inédita na cidade. "A gente ri, mas o trem tá feio mesmo", diz. "Nem meu pai, que já está há 30 anos em siderúrgica, nunca viu nada parecido, só os mais velhos que dizem que em 1929 a coisa também ficou feia aqui em Sete Lagoas."
Os cerca de 7 mil trabalhadores que perderam seus empregos são vítimas também de uma cultura econômica monoprodutiva. Sete Lagoas tem mais de 30% de sua economia ligada diretamente à produção de ferro-gusa, setor que até setembro empregava mais de 10 mil pessoas. A cidade é uma das maiores produtoras do país. Em Itabira, a concentração é ainda maior: mais de 70% da economia local está ligada à Vale, que tem duas grandes minas de minério de ferro praticamente dentro da cidade, a menos de três quilômetros da avenida principal, e emprega direta e indiretamente cerca de 10% da população local. Só a Vale demitiu 80 funcionários diretos e cancelou os contratos de cerca de 2 mil trabalhadores terceirizados.
Por conta disso, quando a grande bolha começou a dar sinais de que ia estourar, as duas sentiram quase que imediatamente os efeitos. "Já em meados de setembro os caminhões de minério e carvão começaram a escassear, mas nada que pudesse fazer a gente imaginar que ia ficar assim", diz Éder Camilo, gerente do Posto Divino, em Sete Lagoas, onde as vendas diárias de óleo diesel despencaram dos 10 mil litros de setembro para os atuais 800 litros. (veja texto abaixo).
Os dois setores sempre viveram na gangorra da demanda internacional e, de certa forma, estão acostumados aos altos e baixos. A diferença é que dessa vez a descida foi profunda demais e em uma velocidade que ninguém ainda havia experimentado. "A redução de empregos foi brutal, inédita, nunca, em 30 anos em que atuo no setor, vi algo semelhante, nem na época da privatização", diz Carlos Renato Ferreira, vice-presidente do Metabase, sindicato que representa os funcionários da Vale em Itabira.
O impacto nas duas cidades se repete em todo o Estado de Minas Gerais, onde mais de 55% do PIB de R$ 220 bilhões é gerado pelos setores mineral e siderúrgico. "Estamos tentando diversificar a economia, apostando em tecnologia, principalmente, mas esse não é um processo rápido, leva tempo, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas, Raphael Guimarães.". Segundo ele, nesse momento, não há muito o que fazer pelos milhares de desempregados. "O poder público estadual não tem muitas ferramentas, não podemos pagar a folha das empresas, nossa arrecadação também está caindo."
Nos últimos seis anos, Minas Gerais se orgulhou de um crescimento econômico forte e de ser um dos Estados que mais geraram emprego no país. A parada abrupta nesse ciclo de expansão ainda parece um mistério para a maior parte dos trabalhadores simples e de pouca escolaridade - a grande maioria deles - que perderam o emprego repentinamente em Sete Lagoas e Itabira. "Olha, de verdade, a gente não entende como um trem dos infernos desse lá de fora pode atingir a gente aqui", diz Milton Dionísio Pereira, de 52 anos, sendo que 30 deles foram gastos trabalhando em uma usina de ferro-gusa. "Mais difícil ainda é entender como um moreno lá nos Estados Unidos vai me ajudar a arranjar trabalho de novo aqui em Sete Lagoas. Tá tudo complicado demais", comentava Milton na porta do sindicato dos metalúrgicos, enquanto esperava para ter a demissão homologada junto com outros 20 colegas, um dia após a posse de Barack Obama como o 44º presidente americano.
Um dia antes, quando ainda faltavam umas duas horas para que Obama subisse ao palco montado em frente ao Capitólio para fazer juramento de posse, Otacílio Rodrigues de Souza era comunicado que perdera seu emprego de quase três décadas na Vale. Ele havia chegado para trabalhar normalmente na Usina Conceição, uma das maiores da Vale em Minas Gerais, quando seu chefe o chamou. "Ele tirou meu crachá, me entregou a carta de demissão e disse que eu devia me retirar imediatamente", conta Otacílio, um operador de máquinas de 52 anos. "Nem me deixaram pegar meu pente, minha marmita e minha toalha, fui praticamente expulso, depois de 30 anos de dedicação à Vale."
Ao contrário dos metalúrgicos de Sete Lagoas, com menos especialização e acostumados à sazonalidade do ferro-gusa, os funcionários demitidos pela Vale parecem estar em choque. Muitos deles provenientes de um tempo em que tinham estabilidade estatal, parecem não acreditar que a segunda maior mineradora do mundo, com crescimentos recordes ano a ano, possa sofrer de forma tão contundente os efeitos de uma crise internacional. "Ganharam dinheiro demais com a gente, não tinham direito de fazer isso por causa de três meses de redução", diz Otacílio, com mais mágoa do que revolta em seu desabafo.
A Vale reduziu em quase 35% a produção em Itabira no quarto trimestre de 2008 em comparação a igual período do ano anterior. No acumulado do ano, produziu 41 milhões de toneladas de minério de ferro na cidade onde nasceu Carlos Drummond de Andrade, uma redução de 10% sobre os números de 2007. Na última quinta-feira fez uma proposta de licença remunerada aos seus funcionários, com redução de 50% dos salários, para evitar novas demissões. Mas, independentemente dos acordos trabalhistas, se a demanda não voltar a se reaquecer, a tendência é que casos como o de Otacílio se repitam mais vezes.
Em Sete Lagoas, onde 35 dos 39 fornos de produção de ferro-gusa estão parados, ainda existem empresas tentando manter seus funcionários, mesmo com a produção parada. A maior parte delas está ligada ao setor de auto-peças, que conta com trabalhadores mais qualificados que aqueles que trabalham nas siderúrgicas e, por isso, mais caros para serem demitidos.
A empresa de Marcos Cypriano, a MC Indústria de Auto Peças, está nessa situação. Quase 90% dos produtos de plástico injetado que saem de sua fábrica vão direto para a Iveco, que tem uma unidade de produção em Sete Lagoas. A MC está sem produzir há 45 dias, quando a Iveco, que demitiu mais de 200 funcionários na cidade, suspendeu as operações. "Estou negativado em cartório, vendendo ativos e buscando meios de pagar a folha de meus 140 funcionários, mas há um limite para o fôlego", diz Cypriano.
Se as operações da Iveco não retornarem em breve, provavelmente ele terá que entrar na longa fila do Sindicato dos Metalúrgicos para agendar a homologação de seus funcionários. No dia 20, só havia vaga para novas homologações a partir de 12 de fevereiro. Até lá não há capacidade física e de pessoal no sindicato para dar baixa em tantas carteiras de trabalho.