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Mercado não quer dólar. Quer especular.
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Por Dentro do Mercado:

Mercado não quer dólar. Quer especular.


    Luiz Sérgio Guimarães
    09/10/2008
Texto: A- A+
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Colunista

Os leilões de venda direta de dólar feitos ontem pelo Banco Central não podem ser responsabilizados pela baixa de 1,34% registrada pelo dólar no fechamento, cotado a R$ 2,28. Depois de um surto especulativo matinal em que a moeda americana disparou, sem muitos negócios, 7,31%, passando de R$ 2,3110 para R$ 2,48, o Banco Central sacudiu o seu imobilismo e fez três leilões sucessivos de venda. A conta paga pelo BC pela intervenção foi irrisória: sacou das reservas apenas US$ 1,55 bilhão, o equivalente a 0,75% da posição em reserva do dia 3, de US$ 206,885 bilhões. Mas as operações mostraram que o mercado não quer dólares. Quer somente especular com a alta. O BC ofereceu aos bancos nada menos que US$ 4 bilhões e, do US$ 1,55 bilhão efetivamente vendido, US$ 800 milhões foram arrematados pelo Banco do Brasil. São montantes incompatíveis com a maxidesvalorização cambial de 59%.

Foto Destaque

Na aparência, o sucesso da ofensiva estaria garantido pelo fato de que os volumes e preços foram decrescentes. Na primeira, feita às 10h13, vendeu R$ 1,223 bilhão. Na segunda, às 10h43, o mercado já quis comprar só R$ 310 milhões. Na terceira operação, às 11h29, colocou apenas R$ 16 milhões. E as taxas de corte foram declinantes, de R$ 2,4485 no primeiro, R$ 2,37 no segundo e R$ 2,3560 no terceiro. Se sua fome por dólares fosse insaciável, o mercado exigiria volumes crescentes e as taxas não diminuiriam. Da mesma forma que o BC errou ao permitir, em 2006, que o dólar caísse abaixo de R$ 2,00, equivocou-se agora, no início do mês, ao autorizar que superasse os R$ 2,00. Ele optou pela estratégia de apenas observar a alta enquanto ajudava, via leilão de swaps cambiais, os bancos a se livrar dos hoje ruinosos (antigamente, ultrarentáveis) swaps reversos. A outra estratégia, a do leilão de linhas externas, nunca foi levada a sério pelos corretores de câmbio. A venda compromissada de dólares, equivalente técnico ao fornecimento de um crédito em dólar, nunca atingiu o coração da disparada. Os números sobre fluxo cambial divulgados ontem pelo BC comprovam o alerta dado por esta coluna no dia 2 de que a arrancada decorria de armações especulativas feitas nos pregões de derivativos cambiais da BM&F e em mercados de balcão por investidores estrangeiros, exportadoras nacionais e bancos instalados aqui.

A balança cambial relativa aos primeiros dias de outubro comprova a informação de que, se há de fato um corte importante nas linhas de ACC, os exportadores encontram outras alternativas para fechar suas vendas externas. O fluxo registrado nos três primeiros dias do mês foi positivo em US$ 514 milhões. A conta comercial foi superavitária em US$ 1,14 bilhão enquanto a financeira mostrou déficit de US$ 631 milhões. Os bancos estão, como sempre, na posição correta. À vista, elevaram suas posições "compradas" de US$ 3,75 bilhões no fim de agosto para US$ 6,68 bilhões no fim de setembro. Obviamente, antes de divulgá-los, o BC já tinha conhecimento dos dados. E, mesmo sabendo que não era a falta de linha, nem os prejuízos com os swaps cambiais reversos (compensados pelas outras posições "compradas" dos bancos ) os responsáveis pela espetacular valorização do dólar, insistia apenas na venda de linhas e recompra de swaps. Tais operações não faziam, é claro, efeito nenhum. Os leilões de venda direta fazem?

Não é por que o dólar fechou em queda ontem que o BC irá se descuidar. Vai ter de dar paulada todo dia se os especuladores colocarem de novo a cabeça para fora. E o farão, para aumentar lucros ou se livrar de posições desastrosas, se o Dow Jones piorar mais ainda. O BC terá de derrubar a taxa de câmbio porque, a despeito da paradeira no lado real da economia, historicamente sempre há contágio inflacionário de maxidesvalorizações cambiais. Foi assim em 1999, foi assim em 2002. Após o fim da âncora cambial, logo no primeiro mês de 1999, o real depreciou-se quase 63%, o Copom puxou a Selic de 25% para 45% em sua reunião de 4 de março de 1999, mas a inflação anual bateu em 8,94%. Mas o Brasil não está hoje "fundamentalmente" diferente daqueles outros brasis? Está, sim, em quase todos os fundamentos, menos em um, o da dívida interna pública. E já há economista ressuscitando a famosa e polêmica tese da "dominância fiscal". Por ela, o BC não poderia seguir os passos da flexibilização monetária coordenada feitos ontem pelos mais importantes bancos centrais do mundo porque, por causa da alta do dólar e premido pela necessidade de rolar os papéis da dívida pública, teria de aceitar as taxas pedidas pelos bancos credores. O BC perderia a capacidade de fazer política monetária. Não seria mais ele a determinar a Selic, mas os credores da dívida, os mesmos que estão "comprados" em dólar.

Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças

E-mail: luiz.guimaraes@valor.com.br

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