| Chris Kleponis / Bloomberg News |
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| Para Nouriel Roubini, professor da Universidade de Nova York, o país deve combinar estímulos de curto prazo com compromisso fiscal de longo prazo |
"O Brasil está em melhor forma do ponto de vista macroeconômico e de fundamentos financeiros do que há dez anos. Mas, em um mundo com recessão severa, todos sairão machucados. O Brasil é uma vítima acidental deste tsunami de liquidez", disse Nouriel Roubini, professor de Economia da Stern Business School, da Universidade de Nova York.
Considerado um dos raros economistas que previu a crise atual com antecedência, Roubini espera que a economia brasileira terá um crescimento "ligeiramente negativo" neste ano. Mas, a recuperação, acrescentou, depende "não só de como o Brasil se comporta, mas também como se sairá a economia mundial".
Se o futuro do Brasil depende do que vai acontecer no mundo, as perspectivas não são muito boas a julgar pelo que mais falou Roubini, ontem, ao participar de um debate sobre a crise que marcou o lançamento oficial da gestora de fundos BTG Investments L.P., junto com o professor de Finanças da Universidade de Columbia e ex-membro do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Frederic Mishkin. Também tomou parte das discussões Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central (BC) em 1995 e um dos sócios fundadores da BTG, ao lado de André Esteves.
Roubini está muito pessimista com a resposta lenta das autoridades para deter a crise. "Não é tarde demais, mas o tempo para pensar e introduzir reformas está se esgotando. O paciente está em coma e é preciso ressuscitá-lo antes de aconselhá-lo a fazer regime e entrar em forma. Mas precisamos de respostas mais agressivas não só dos Estados Unidos. O tempo para fazer isso é já", disse Roubini.
A urgência se deve ao fato de já ser possível, segundo o economista, identificar um grave aprofundamento da crise. Conforme disse, inicialmente se esperava que a economia tivesse um comportamento na forma da letra V, com uma desaceleração curta e rasa, de oito meses, como ocorreu em 1991 e 2001. Com o passar do tempo, achou-se que o movimento seria mais semelhante à letra U, com uma desaceleração mais grave e com 24 meses de duração.
Mas, a previsão de que a recuperação só virá em 2010 ou mais á frente, torna mais provável que a economia tenha um comportamento na forma da letra L, como uma depressão, semelhante à do Japão. "Se as autoridades fizerem tudo certo, o crescimento será negativo em 2009 e teremos recessão também em 2010. Passarão 36 meses antes de sairmos da crise e será a pior fase desde a Grande Depressão de 1929. É preciso evitar a deflação. Leva-se 10 anos para sair de uma deflação", disse Roubini.
Para ele, os governos devem tomar medidas monetárias, fiscais e heterodoxas para lidar com a crise do sistema bancário, recuperar a liquidez e reanimar a economia. Um ponto fundamental é limpar os bancos e devolvê-los para a iniciativa privada.
Mishkin chamou a atenção para o círculo vicioso perverso: a crise dos bancos afetou a economia real e, agora, a desaceleração, volta a causar problemas nos bancos.
O problema já chegou aos mercados emergentes, jogando por terra a tese do descasamento "decoupling", disse Roubini, chamado de Dr. Doom pelo mercado e pelo próprio Mishkin.
"Em um mundo de crescimento negativo nenhum mercado emergente, mesmo com fundamentos sólidos, pode ir melhor. Será necessário manter políticas sólidas, depende de como a inflação vai se comportar, sem emprestar demais. Sem enfraquecer o Real demais, e mantendo as reservas", disse especificamente a respeito do Brasil.
Arida lembrou que o Brasil tem "amortecedores" para a crise. Um deles é o fato de os juros ainda serem elevados e de haver um bom espaço para reduzí-los. Já a margem de manobra fiscal considera mais reduzida.
Para Mishkin, é "necessário um afrouxamento" da política brasileira de juros alto "sem comprometer o combate à inflação. O Brasil tem espaço amplo para de cortar a taxa de juros", afirmou.
Inflação não é porém um problema que preocupa Roubini porque seu combate com uma mescla de política monetária e fiscal já é conhecido. O duro mesmo, frisou, é sair da deflação.
Para ele, o Brasil deve combinar estímulos de curto prazo e, ao mesmo tempo, se comprometer com reformas a longo prazo para reduzir o déficit fiscal. Se fizer as duas coisas ao mesmo, de modo a minorar os problemas atuais sem ignorar a sustentabilidade fiscal a médio prazo, a economia sairá ganhando, sugeriu.
Segundo Arida, se a crise está atingindo a todos países sem distinção, a recuperação será seletiva; e o Brasil está bem posicionado para a retomada porque não teve os excessos da economia mundial. "Não nos beneficiamos da festa, mas estaremos em melhores condições quando a festa voltar", afirmou.