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Estrangeiro já tirou R$ 21,7 bi do pregão
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De Olho na Bolsa:

Estrangeiro já tirou R$ 21,7 bi do pregão


    Daniele Camba
    24/10/2008
Texto: A- A+
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Colunista

Ninguém tem dúvida de que a crise financeira aumentou a aversão ao risco e afugentou o investidor estrangeiro de aplicações em ativos de países emergentes em que risco/retorno são bem mais elevados. Mas os números que comprovam essa fuga deixam até os mais pessimistas boquiabertos. Este mês, até o dia 21, o saldo líquido (diferença entre compras e vendas) de investimentos estrangeiros na Bovespa está negativo em R$ 3,343 bilhões - resultado da compra de ações de R$ 29,844 bilhões e de vendas de R$ 33,188 bilhões. No acumulado do ano, o saldo já está negativo em R$ 21,691 bilhões. Isso significa um caminhão de dinheiro que já bateu em retirada do pregão brasileiro, especialmente nos últimos meses, depois que a crise ganhou tons mais dramáticos e o fato de o Brasil ter sido promovido ao grau de investimento por duas agências de classificação de risco virar notícia velha.

Foto Destaque

Mesmo com toda essa saída, os analistas afirmam que os estrangeiros continuam diariamente resgatando parte dos recursos que ainda têm nas bolsas de emergentes. Isso acaba prejudicando bastante a Bovespa, já que nos últimos anos, com as valorizações acentuadas das ações brasileiras, este foi um dos mercados preferidos por quem estava disposto a correr riscos maiores. As quedas significativas do Índice Bovespa nas últimas semanas estão amplamente relacionadas à saída do capital internacional. Ontem foi mais um dia desses. O índice chegou a cair quase 7% durante o pregão, mas anulou parte das perdas próximo do fim dos negócios, encerrando em baixa de 3,57% aos 33.818 pontos. Essa é a menor pontuação do indicador desde 20 de junho de 2006, quando estava em 33.632 pontos.

A saída do estrangeiro é ainda mais grave pois compõe um cenário de total e absoluta ausência de ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês), que vinham aquecidas desde 2004, quando a Natura abriu o capital no Novo Mercado da Bovespa e puxou a enorme fila de estreantes no pregão. Vale lembrar que os estrangeiros foram com muita sede ao pote e ficaram com cerca de 75% das ações dessas novas companhias abertas.

"Como não há IPOs, a saída do estrangeiro acaba sendo bem maior que esses quase R$ 22 bilhões que os números mostram", diz o estrategista de renda variável para pessoa física da Itaú Corretora, Fábio Anderaos de Araújo. A queda do volume financeiro de negócios dia após dia tem relação direta com essa fuga de recursos externos, acredita Anderaos. "As pessoas físicas locais ainda estão, de forma geral, aguentando as pontas, mas elas não têm porte suficiente para comprar todas as ações que os estrangeiros vendem, o que resulta numa queda do volume de negócios, além da desvalorização dos papéis", completa o estrategista da Itaú Corretora. O volume de ontem, por exemplo, foi de R$ 4,4 bilhões, bem longe dos R$ 7 bilhões que as ações brasileiras chegaram a negociar em um único pregão e neste ano.

Os números mostram como as pessoas físicas não têm apetite que comporte o tamanho da saída dos grandes aplicadores internacionais. Este mês, por exemplo, até o dia 21, as pessoas físicas, o que inclui as carteiras individuais e os clubes de investimentos, registram um saldo líquido de R$ 899 milhões, ante os R$ 3,343 bilhões que os estrangeiros tiraram. Ou seja, a conta não fecha. A saída é então os investidores baixarem os preços para que outros se interessem pelos seus papéis.

Vale para um lado, bancos para outro

Foto Destaque

Pelo menos a Vale tenta animar o mercado. Após o fechamento do pregão de ontem, a mineradora divulgou o balanço do terceiro trimestre. A companhia teve um lucro líquido de R$ 12,4 bilhões no período, léguas à frente das projeções da maioria dos analistas, que esperava entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões de lucro. Ontem, as ações preferenciais (PN, sem direito a voto) série A da Vale fecharam em queda de 3,32%, um sinal de que o mercado nem sonhava com a boa notícia que ainda estava por vir. Ao que tudo indica, os papéis devem ir à forra hoje, o que também deve ajudar o Ibovespa, já que a mineradora é a segunda companhia mais importante dentro do índice, atrás apenas da Petrobras. Se depender de espaço, as ações da Vale podem ir até a lua. No ano, as PNA caem 52,34% ante uma baixa de 47,07% do Ibovespa.

Já os papéis de bancos não encontram o fundo do poço. Ontem, as units (recibo de ações) do Unibanco caíram 9,80%, as PN da Itaúsa se desvalorizaram 9,68% e as PN do Itaú, 8,24%. Há no mercado os mais variados rumores sobre a saúde das instituições financeiras. O que se diz entre as mesas de operações é que devem existir motivos suficientemente preocupantes para o governo estar movendo montanhas para que os bancos consigam vender suas carteiras de crédito ou até mesmo serem vendidos.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

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