Os investidores já estavam até esquecendo de como as ações podem cair bastante num único dia. A queda do Índice Bovespa ontem, de 6,13%, para 37.785 pontos, interrompeu um movimento, mesmo que curto, de intensa recuperação das ações. Para se ter idéia, num intervalo de seis pregões, entre 28 de outubro e 4 de novembro, o índice se valorizou 36,76%. Nesse período, caiu apenas um dia, na sexta-feira passada e, mesmo assim, muito pouco, somente 0,51%. As altas são ainda mais impressionantes considerando prazos ainda menores. Em apenas 72 horas, entre os pregões de 28 e 30 de outubro, o Ibovespa acumulou valorização de 27,22%. Ao ver esses números auspiciosos, a grande pergunta que fica é: quem foram esses investidores que entraram na bolsa em pleno olho do furacão da crise financeira e patrocinaram uma importante recuperação dos preços? Foram investidores brasileiros, dos mais variados tipos e portes.
Os números comprovam esse fluxo positivo de todas as categorias de investidores locais. Em outubro, o saldo líquido (diferença entre compras e vendas) de pessoas físicas foi positivo em R$ 702,9 milhões. Dentro dessa categoria, o saldo dos investidores que aplicam sozinhos foi positivo em R$ 871,4 milhões, mais do que compensando os resgates de R$ 168,4 milhões dos clubes de investimentos. O saldo líquido das instituições financeiras foi positivo em R$ 457,3 milhões e o das empresas, em R$ 1,2 bilhão. Mas a grande contribuição na alta veio mesmo dos investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras, cujas compras ultrapassaram as vendas em R$ 2,2 bilhões.
O estrategista de renda variável para pessoa física da Itaú Corretora, Flávio Conde, explica os motivos que fizeram os brasileiros voltarem a olhar a bolsa como uma opção interessante de investimento. Entre agosto e meados da primeira quinzena de setembro, eles venderam boa parte de suas carteiras de ações, com a percepção de que o mundo estava prestes a acabar. A partir da segunda metade de setembro, essa paúra perdeu força, especialmente em outubro, quando começaram a sair os balanços referentes ao terceiro trimestre, com resultados muito menos catastróficos do que se previa. "O que aconteceu nos últimos dias foi o que podemos chamar de um 'rali de alívio', já que os números do terceiro trimestre mostraram que as companhias continuam tendo bons resultados, mesmo com o turbilhão em que se encontra o mercado financeiro", diz Conde.
Os lucros das empresas americanas e européias caíram, em média, entre 5% e 10% no último trimestre ante o mesmo período do ano passado, segundo o estrategista da Itaú Corretora, ou seja, nenhuma desgraça. Enquanto que as companhias brasileiras tiveram um aumento dos lucros, algumas com resultados recordes, que foi o caso da Vale, que lucrou R$ 12,4 bilhões, o maior da sua história. Conde alerta, no entanto, que os resultados das empresas do quarto trimestre já serão bastante impactados pelos reflexos da crise na economia real. "Com essa perspectiva pior, pode ser mais difícil manter esse nível de ânimo nos investidores brasileiros", diz o executivo. A desilusão no caso das companhias nacionais pode ser maior até do que com as estrangeiras, já que as brasileiras vêm com resultados crescentes há vários trimestres, acredita.
É animador perceber que, além das compras de ações pelos investidores locais superarem as vendas, há novos brasileiros ingressando no mercado acionário. Segundo dados divulgados ontem pela bolsa, havia em outubro 542.142 pessoas físicas com ações depositadas na Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC) ante 527.692 no mês anterior. Vale lembrar que, no início do ano, eram 450 mil as pessoas que tinham alguma aplicação em bolsa.
Brasileiros X Estrangeiros
Entre as diversas categorias de investidores, os estrangeiros foram os que venderam muito mais do que compraram no mês passado. O saldo líquido foi negativo em R$ 4,685 bilhões, que é maior do que o saldo líquido positivo total dos investidores brasileiros (pessoas físicas, institucionais, empresas e instituições financeiras), de R$ 4,114 bilhões. Isso explica, em parte, o fato de a recuperação da Bovespa, apesar de intensa, não se manter de forma consistente. "Esse é um sinalização importante de que ainda é muito cedo para apostar todas as fichas nas altas do Ibovespa nos últimos dias", diz Conde. Essa queda-de-braço de brasileiros versus estrangeiros também explica a enorme volatilidade no comportamento dos papéis. Para o estrategista da Itaú Corretora, é razoável supor que a bolsa deve se recuperar de forma moderada até o fim do ano, com o Ibovespa terminando 2008 entre 44 mil e 48 mil pontos.
Daniele Camba é repórter de Investimentos
E-mail: daniele.camba@valor.com.br