As investigações sobre subornos pagos pela gigante alemã Siemens para obtenção de contratos públicos chegaram ao ex-presidente da Argentina Carlos Menem (1989-1999). Em um relatório apresentado segunda-feira ao juiz federal Richard J. Leon, em Nova York, sobre as atividades ilegais da Siemens, a SEC (a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos) diz que a empresa pagou US$ 2,6 milhões a Menem. Os recursos teriam sido transferidos pela companhia alemã diretamente a contas dele, de seu então ministro do Interior Carlos Corach e do então diretor do departamento de Migrações Hugo Franco. O relatório não especifica quanto cada um teria recebido.
O dinheiro teria sido pago para garantir a participação da Siemens em um contrato com o Estado no valor de US$ 1 bilhão para produção de documentos de identidade (DNI). O relatório da SEC, disponível na página da comissão na internet, foi manchete dos principais jornais argentinos. A empresa alemã teria admitido ainda às autoridades americanas que se comprometeu a pagar mais US$ 30 milhões nos anos de 1998 e 1999.
No total, a Siemens teria pagado mais de US$ 40 milhões entre 1998 e 2004 em propinas a funcionários do governo argentino.
Além do dinheiro supostamente pago a Menem, a empresa afirma que pagou suborno a funcionários dos governos seguintes (Fernando de la Rúa, Eduardo Duhalde e Néstor Kirchner) para se manter no projeto do DNI, que acabou cancelado em 2001 por De la Rúa. Os outros presidentes, no entanto, não foram envolvidos - a propina teria sido paga a funcionários de entidades ligadas aos governos.
Além da Argentina, o relatório da SEC afirma que a Siemens pagou propinas em contratos de construção de linhas de metrô na Venezuela, centrais elétricas em Israel, refinarias de petróleo no México, redes de telefonia celular em Bangladesh e equipamentos médicos no Vietnã, China e Rússia. A empresa é investigada pelo mesmo motivo na Alemanha e também no Brasil, onde o Ministério Público estadual de São Paulo investiga contratos com o governo paulista para a construção de duas linhas do Metrô.
Em um comunicado à imprensa sobre o relatório, a diretora do departamento de investigações da SEC, Linda Chatman Thomsen, declarou que o "padrão de subornos" da Siemens" não tem precedentes em escala e alcance geográfico". A denuncia levantada pela comissão envolve mais de US$ 1,4 bilhão em propinas a governos nos cinco continentes. A empresa também teria pagado suborno a ministros iraquianos para a venda de centrais e equipamentos elétricos com dinheiro do Programa da ONU para a troca de petróleo por comida.
Atualmente senador do partido Justicialista (peronista) pela província de La Rioja, e com a saúde muito fragilizada, Carlos Menem divulgou um comunicado por meio de seus assessores qualificando as acusações de "infundadas e maliciosas" e ameaçou "iniciar ações civis e penais contra os autores [públicos ou privados] de tamanha manobra de difamação". Seu assessor de imprensa Jorge Raventos disse ao Valor que os advogados do ex-presidente já estão trabalhando no caso. Mariano Cúneo Libarona, advogado de Carlos Corach e Hugo Franco, disse ao jornal "La Nación" que vai exigir provas das acusações.