Análise: Estrangeiro amplia compra de emergente
Valor Econômico
14/09/2006 09:52
SÃO PAULO - A alta do petróleo, após sete quedas consecutivas, não atrapalhou ontem a recuperação irrestrita dos mercados financeiros. O avanço de US$ 0,21 no preço do barril negociado na Nymex, para US$ 63,97, foi o primeiro registrado em setembro. E não passou de um respiro técnico depois de acumular desvalorização de 9% no período. Os fundos testaram a possibilidade de um novo espasmo de alta, mas como não há justificativas econômicas ou geopolíticas, é mais provável que o barril afunde até US$ 60,00. As commodities metálicas e agrícolas, a principal fonte de preocupação dos segmentos estritamente financeiros nos últimos dias, se recuperaram. As demonstrações de confiança no futuro da economia mundial provenientes das matérias-primas autorizaram aos mercados o comportamento clássico dos dias positivos: bolsas em alta, dólar, juros e risco-país em queda.
Está se desenhando para os grandes investidores internacionais, senão o melhor dos mundos financeiros, um dos mais agradáveis e lucrativos. Ele concilia um esfriamento global moderado e sob controle, sem traumas e trancos, com uma política monetária americana sensata e responsável. Os juros dos treasuries de 10 anos caíram ontem de 4,77% para 4,75% sem deixar dúvida ao consenso de que o Federal Reserve (Fed) irá manter o juro básico americano em 5,25% em sua reunião marcada para a próxima quarta-feira. O capital externo já está seguro a ponto de reiniciar incursões mais consistentes nos mercados emergentes. A Bovespa já voltou, por exemplo, a receber dinheiro de fora. Nos oito primeiros dias de setembro, o saldo de investimento estrangeiro já se mostrou positivo em R$ 377,67 milhões. O objetivo, ambicioso, é zerar o déficit acumulado no ano, ainda elevado, de R$ 2,028 bilhões. O índice subiu ontem 1,11%.
A nova disposição do capital externo também foi notada no segmento que mais sofre o impacto direto do entra-e-sai, o de câmbio. O dólar caiu ontem 0,50%, para R$ 2,1580, empurrado mais por fluxo genuíno do que por meras arbitragens com taxas de juros em dólar engendradas por tesourarias. O Banco Central não interferiu muito no movimento. Ao aceitar apenas quatro das 16 propostas formuladas por instituições, transformou o seu leilão de compra num evento burocrático.
O dedo do estrangeiro também foi observado no mercado futuro de juros da BM & F. O seu ingresso provoca queda dos contratos mais longos. Foi o que se viu ontem: enquanto os CDIs previstos para as viradas de 2007 e 2008 ficaram estáveis em 13,86% e 13,71%, respectivamente, a taxa para janeiro de 2009 cedeu 0,06 ponto, para 13,88%. Nem o câmbio nem o juro futuro estão preocupados com o ensaio de fortalecimento de um viés mais desenvolvimentista num segundo mandato de Lula. A idéia de meta de crescimento econômico, sugerida pelo ministro Furlan e aceita com entusiasmo por Lula, só se tornaria real com um outro Banco Central. E o mercado acredita que Henrique Meirelles só sai se quiser.
(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)
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