Análise: Fed já pode dar sinal de desaperto futuro
Valor Econômico
18/09/2006 09:27
SÃO PAULO - A reunião de setembro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Federal Reserve, marcada para quarta-feira, não deixará de ser o evento mais importante desta semana só porque o Fed não irá contrariar o consenso absoluto de que o juro básico americano será mantido em 5,25%. Ao contrário do cada vez mais sucinto e impermeável comunicado pós-Copom - o último se limitou a quatro linhas -, a nota do Fomc costuma ser mais eloqüente e elucidativa. E o documento despertará mais atenção que a decisão em si. Os analistas desconfiam que o comitê já poderá sinalizar a possibilidade de início de um ciclo de baixa da taxa americana ainda em 2006. O mercado espera manutenção também no encontro de 24 de outubro, mas há dúvida sobre a decisão a ser tomada na última reunião do ano, em 12 de dezembro. Já há quem veja a chance de recuo para 5%.
Não se pode falar em encerramento do aperto monetário americano apenas com a estabilidade do Fed Fund em 5,25%, já que a taxa tem potencial de provocar um desaquecimento econômico mais severo. Mesmo tendo parado de subir o juro, o Fed poderá incorrer no risco de precipitar uma recessão se mantiver o juro em 5,25% por muito tempo. Tudo indica que ele já está acima do juro nominal de equilíbrio para a atual situação da economia dos EUA. A taxa chegou ao patamar de 5,25% no Fomc de 29 de junho e foi preservada aí no de 8 de agosto. Se, portanto, vier a cair somente no final de dezembro, terá permanecido neste patamar elevado por praticamente seis meses, tempo mais do que suficiente para ajustar inflação e atividade.
Dados mais recentes sobre produção e preços reforçaram a visão do início do afrouxamento monetário ainda este ano. A inflação ao consumidor veio bem em linha com as previsões. Tanto o CPI (Índice de Preços ao Consumidor) cheio de agosto quanto o seu núcleo subiram 0,2%, confirmando as expectativas. Já a produção industrial americana, também referente ao mês passado, decepcionou: ao contrário da expansão de 0,2% esperada pelos economistas, ela registrou declínio de 0,1%. A expectativa é de que esta direção seja confirmada amanhã com a divulgação de dois indicadores também fundamentais: o PPI (Índice de Preços ao Produtor, a inflação no atacado) e o número de novas casas em construção, ambos relativos a agosto. Para o PPI, a projeção é de uma alta de 0,3% no índice cheio e de 0,2% no núcleo, ante 0,1% e --0,3%, respectivamente, em julho.
Tanto a perda de vigor da atividade quanto o enfraquecimento das pressões inflacionárias refletem o aperto monetário desencadeado pelo Fed no dia 30 de junho de 2004, quando, após congelamento do juro em 1% durante um ano, elevou a taxa para 1,25%. Mas qual aperto monetário o estado atual da economia americana está refletindo? Segundo os analistas, dada a defasagem entre 12 e 18 meses para que uma decisão de política monetária surta pleno impacto nos EUA, os indicadores referentes a agosto ainda estão sob o impacto do juro de 4% decidido na reunião do Fomc de 1º de novembro de 2005. " Quando a taxa atual de 5,25% fizer efeito, em 2007, aí teremos uma recessão branda " , diz Paulo Valente, economista da Profit Consultoria.
Nos EUA o efeito de oscilação de taxas é mais importante do que no Brasil pois lá há muito financiamento de longo prazo. " A variação de 4% para 5,25% sobre um mortgage payment afeta muito a parcela mensal de pagamento " , observa Valente. No Brasil, ao contrário, o financiamento aos consumidores se dá em geral em 10 meses, mas o declínio da Selic tem afetado pouco o custo desses empréstimos por causa do spread rígido.
Esta rigidez dificulta o repasse para o crédito da acentuada queda sofrida pelo swap de 360 dias, o juro privado referencial, que segue fielmente as decisões e as sinalizações do Copom. A taxa recuou sexta-feira de 13,70% para 13,60%, embutindo juro real de 8,82%. No início de setembro, o swap estava em 13,95%. E, no começo de agosto, em 14,50%.
(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)
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