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São Paulo, 25 de julho de 2008

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Análise: Fed não altera consenso a Copom

Valor Econômico
09/08/2006 09:17

SÃO PAULO - A decisão tomada ontem pelo Federal Reserve (Fed) de não subir os juros básicos americanos não foi suficiente para estimular o mercado doméstico a iniciar uma revisão do consenso provisório para a próxima reunião do Copom, no dia 30. As instituições mantiveram a sua expectativa de que o Copom irá diminuir o ritmo de corte da Selic de 0,50 para 0,25 ponto percentual porque, apesar de o Fed ter interrompido uma seqüência de 17 altas da taxa básica, não provocará o retorno da vasta liquidez internacional que caracterizou o mercado externo até as turbulências de maio. A razão é que o Fed apenas deixou de subir o juro ontem. A decisão não significa que o aperto monetário acabou. Se tiver de subir a taxa para 5,5% na reunião de 20 de setembro, ele fará. O Fed não camuflou em seu comunicado o sinal de que a interrupção pode ter sido apenas um pit stop muito rápido, no caso de os índices de inflação não cederem como reflexo da desaceleração econômica dos EUA.

" Esta leitura transfere para o dia 16, quando será divulgado o CPI (Índice de Preços ao Consumidor) de julho e caso o núcleo mostre sinais de retração, as expectativas de retorno da liquidez internacional " , diz Jason Vieira, economista-chefe da UpTrend Consultoria Econômica. Se houver tal retração e a liquidez voltar, abre-se uma oportunidade para a revisão do consenso ao próximo Copom. Por enquanto, a projeção é de que a Selic recuará apenas 0,25 ponto, dos atuais 14,75% para 14,50%. É a projeção embutida no contrato mais curto negociado no mercado futuro da BM & F. Para a virada de setembro para outubro, o CDI permaneceu estável em 14,49%. Mas o swap de um ano recuou de 14,40% para 14,35%.

" O anúncio do Fed foi feito através de um comunicado que deixa claro que há a possibilidade de retomada do ciclo de alta caso a inflação volte a se acelerar. Esse tipo de comunicado, um tanto vago em relação ao futuro, pode manter a volatilidade nos mercados por mais tempo " , adverte o economista-chefe da Grau Gestão de Ativos, Pedro Paulo Silveira. No seu entender, os mercados ficarão em alerta à espera de dados econômicos que sinalizem, semana após semana, as tendências inflacionárias. " Não foi, portanto, a melhor notícia para quem esperava por um mundo mais otimista " , diz.

Esta decepção se refletiu sobretudo no comportamento das bolsas de valores. O Dow Jones recuou 0,41% e o Nasdaq, 0,56%. A Bovespa, muito dependente do capital externo, cedeu 0,25%. Mas o dólar e o risco-país recuaram. Este caiu 4 pontos, para 214 pontos-base, denunciando aumento de apetite por ativos de emergentes. O dólar fechou em baixa de 0,36%, cotado a R$ 2,1780. O motivo da desvalorização não foi uma expansão expressiva no fluxo de entrada, mas a baixa efetividade do leilão de compra realizado pelo Banco Central. Aceitou apenas duas propostas, pela taxa de corte de R$ 2,1825. O dólar só não exigirá mais empenho do BC porque Ben Bernanke está em córner. Ele não pode nem sustentar firmemente uma estabilidade monetária nem mostrar-se rigoroso demais. É por isso que a decisão de ontem foi imprecisa.

Como lembra o economista-chefe da Pentágono Asset Management, Marcelo Ribeiro, se o Fed estabilizar o juro a alta das commodities e o enfraquecimento do dólar irão contaminar os indicadores de inflação mais adiante, fazendo com que tenha de ser ainda mais agressivo no futuro. E se ele continuasse elevando os juros? Aí poderia jogar a economia americana numa recessão.

O Fed não quer ser visto nem como benevolente com a inflação nem como excessivamente enérgico, justamente para evitar comportamentos específicos por parte dos mercados. Se estes reduzem a probabilidade de elevação de juros, o dólar se enfraquece globalmente e as commodities sobem em função de um dólar mais fraco. Os investidores compram commodities e ativos relacionados à mercados emergentes e, finalmente, cresce o apetite por risco e o desinteresse por ativos defensivos. Mas, com alta das commodities, ocorre contaminação dos indicadores de inflação nos EUA. E a curva de juros é novamente precificada para embutir novas elevações da taxa pelo Fed.

" Inicia-se então, o ciclo inverso. Os mercados elevam a probabilidade de aumento de juros para as próximas reuniões, o dólar se fortalece globalmente, as commodities caem em função de um dólar mais forte, investidores vendem mercados emergentes e commodities e observa-se o aumento na aversão ao risco e no interesse por ativos defensivos " , diz Ribeiro. O Fed não quer que os mercados entrem nesse ciclo enquanto o aperto já feito não reduz as pressões inflacionárias.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)


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