Análise: Sem traumas, DI ajusta-se ao Copom
Valor Econômico
01/09/2006 09:19
SÃO PAULO - Com calma e sem lágrimas, o mercado futuro de juros da BM & F ajustou ontem a curva de juros à decisão tomada na véspera pelo Copom de reduzir a Selic de 14,75% para 14,25%. O contrato para a virada deste mês caiu 0,20 ponto, para 14,14%. E o relativo à virada do ano cedeu 0,18 ponto, para 14%. O swap de 360 dias - piso referencial para as operações de crédito - tombou de 14,20% para 13,95%. Descontado o IPCA de 4,51% previsto pelo Boletim Focus para o mesmo período, o swap real caiu a 9,03%. Trata-se do juro real mais baixo desde 16 de fevereiro de 2004, quando estava em 8,98%.
O ajuste pós-Copom não foi traumático. O BC contrariou o consenso, induzido por ele mesmo, de que a Selic cairia 0,25 ponto, mas não causou " surpresa " alguma. Para o mercado financeiro, " surpresa " ocorre quando decisões, fatos ou eventos mexem com o bolso, quando provoca ganhos ou perdas. O mercado monetário não se dedicou ontem a contar mortos e feridos. Na verdade, todos se salvaram. De segunda à quarta-feira, com o crescimento da percepção de que o Copom não iria seguir sua própria sinalização, uma vasta rede de proteção foi armada no pregão de DI futuro da BM & F. Como se faz isso? Quando a Selic cai mais do que o precificado pelo curva, quem está " vendido " - posição prefixada - ganha, e quem está " comprado " na ponta pós-fixada, perde. Como a decisão de política monetária afeta a curva " curta " , até a virada do ano, já que a " longa " (sobretudo os vencimentos entre 2008 e 2010) responde mais aos acontecimentos externos, para se proteger de uma decisão um mesmo banco pode, por exemplo, ficar vendido no contrato Outubro 06 e comprado no Janeiro 07.
O pregão está fazendo agora apostas sobre os próximos passos do BC. Ontem mesmo o contrato Janeiro 07 já embutiu a possibilidade de a Selic persistir em queda até fechar o ano a 13,75%. Para tanto, bastam duas quedas de 0,25 ponto, uma na reunião de 18 de outubro, outra na de 29 de novembro. Este é o cenário básico de uma das instituições, o Credit Suisse, que acertaram a decisão de agosto. Mas o CS não descarta a hipótese de o Copom manter o ritmo de 0,50 ponto também em outubro, o que abre a possibilidade de Selic a 13,50% em dezembro.
Outro analista que acertou na mosca, o economista-chefe da Grau Gestão de Ativos, Pedro Paulo B. da Silveira, também aposta em mais uma baixa de 0,50 ponto. Após o debilitado PIB no segundo trimestre, com alta de apenas 0,50 ponto, as projeções para o ano serão revisadas para baixo e, com elas, as expectativas para a inflação de 2007. Na visão de Silveira, com os juros americanos de 10 anos abaixo de 5%, o Copom poderá testar os limites de baixa da Selic. " Aos poucos a autoridade monetária irá observando até onde a Selic pode cair a ponto de produzir uma taxa real de juros compatível com uma inflação moderada " , diz o economista. Ele observa que o CPI (índice de preços ao consumidor) dos EUA está em 4,15% no acumulado dos últimos 12 meses e o IPCA do Brasil, em 4,03%. " Estamos com uma inflação muito próxima da observada em países industrializados. O crescimento baixo e a inflação moderada sinalizam a continuidade da queda dos juros reais aos níveis mais baixos praticados em décadas " , diz Silveira.
Outra instituição que acertou a previsão de corte da Selic, o Santander Banespa, têm uma explicação simples e eficiente para o baixo crescimento brasileiro. Segundo Maurício Molan, economista da instituição, ela deve ser buscada no " comportamento assimétrico " do BC: apertar agressivamente a política monetária com inflação para cima e afrouxar timidamente com inflação para baixo. Como o Copom está muito focado em atividade e os dados sobre o terceiro trimestre serão melhores, em outubro a redução da Selic deverá ser de 0,25 ponto.
Os ajustes ao Copom se restringiram ao DI futuro. Os demais segmentos se alinharam ao cenário externo. O mercado americano recebeu com apreensão os indicadores divulgados ontem, embora a maioria valide o cenário de desaceleração modera traçado pelo Fed. O núcleo do PCE, índice relativo aos gastos pessoais com consumo, subiu 0,1% em julho quando o mercado previa 0,2%. E as encomendas às fábricas recuaram 0,6% em julho, menos do que o 0,9% esperado pelos bancos. O dólar fechou em alta de 0,32%, cotado a R$ 2,1450. Mas no acumulado de agosto desvalorizou-se 1,42%. Pelas estimativas dos operadores de câmbio, por meio dos seus leilões diários de compra de dólares o BC retirou do mercado em agosto cerca de US$ 4,8 bilhões. Em julho, havia adquirido US$ 4,4 bilhões.
(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)
Notícias Relacionadas