Análise: Tenso, DI suspeita de corte de 0,50 ponto
Valor Econômico
30/08/2006 09:03
SÃO PAULO - O volume de negócios disparou ontem no mercado futuro de juros da BM & F. Na véspera da divulgação do juro básico que irá valer até 18 de outubro, as tesourarias de bancos e os gestores de fundos se protegeram contra a possibilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) ignorar a sinalização contida em sua última ata, de que iria reduzir para 0,25 ponto o ritmo de corte da Selic, e continuar baixando a taxa em 0,50 ponto. Os dois contratos mais curtos de DI futuro, para setembro e outubro, movimentaram juntos R$ 22,2 bilhões, mais do que o contrato referente a virada do ano (R$ 17,93 bilhões), suplantando em importância o vencimento até então mais negociado, para janeiro de 2008 (R$ 12,33 bilhões). A razão é que, se o Copom mantiver hoje o compasso de queda em 0,50 ponto, com a Selic cedendo de 14,75% para 14,25%, a projeção para o final do ano terá de recuar abaixo dos atuais 14%.
Apesar de toda a movimentação dos contratos - a engenharia que entrecruza os vários vencimentos, ora na posição comprada, ora na vendida, visa reduzir perdas em caso de surpresas -, a queda sofrida pelos CDIs futuros foi muito pequena. O referente a virada de setembro cedeu de 14,38% para 14,35%. O CDI estimado para a virada do ano caiu de 14,21% para 14,19%. A curva futura de juros embute apenas 30% de possibilidade de o Copom insistir em corte de 0,50 ponto. A maioria das instituições acredita, em teoria, que o Comitê irá se manter fiel a sinalização feita na última ata. Mas se baixar a taxa em 0,50 ponto quase ninguém sairá perdendo.
Em qualquer das pontas, o Brasil manterá folgadamente a liderança mundial dos maiores pagadores de juros reais. Até mesmo na hipótese impensável de o Copom reduzir a taxa em 0,75 ponto, diretamente para 14%. Nesse caso, de acordo com os cálculos da consultoria UP Trend, o juro depois de descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses recuaria para 9,1%. Mas o país segundo colocado no ranking mundial, a Turquia, paga apenas 5,1% de taxa real. O terceiro, a China, remunera o capital em 4,9% reais ao ano e o México, o quarto, em 4,4%.
Se o Copom limitar-se a cortar a Selic em 0,25 ponto como espera a maior parte das instituições o juro real será ainda mais suculento, de 9,6%. Na hipótese de um desaperto " ousado " , de 0,50 ponto, a taxa real desce a 9,4%. Dos 40 países pesquisados pela UP Trend, cuja média geral de juro real é de 1,6%, apenas o Brasil paga taxa real acima do juro básico nominal americano de 5,25%. E somente os três primeiros tem juro real acima da taxa dos treasuries de 10 anos, de 4,80%. Formar reservas cambiais com taxa real de 9,6% é uma aberração exclusivamente tupiniquim.
Se o Copom seguisse os sinais enviados pelos mercados, poderia abandonar a ortodoxia monetária exacerbada. As reações dos vários segmentos à ata da reunião do Federal Reserve (Fed) do dia 8, a que interrompeu o aperto monetário em 5,25% após 17 altas de juros, foi positiva. Apesar das cautelas tradicionais, o Fed mostrou-se preocupado em não fazer um arrocho excessivo. O mercado entendeu que não há risco de alta da taxa na reunião de 20 de setembro porque, mesmo não tendo feito nada em agosto, o Fed já pode ter ido longe demais. O caminho futuro não é de avanço do juro, mas de queda.
Mais um dado surgiu ontem no sentido de confirmar a suspeita de que a economia americana cai como uma pedra. O índice de confiança do consumidor, medido pelo instituto de pesquisa Conference Board, veio muito aquém do previsto. Os analistas esperavam uma queda em relação aos 107 de julho, mas ainda com uma leitura acima de 100. Mas o indicador de agosto caiu a 99,6 pontos. A ata do Fed conseguiu dissipar apenas parte do mal-estar gerado pelo Conference Board, o suficiente para que o Dow Jones fechasse em modesta alta de 0,16%, após manhã depressiva. Mas a Bovespa caiu 0,19%. O dólar desvalorizou-se 0,09%, para R$ 2,1380, apesar de o BC ter ampliado o volume de compras.
(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)
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