Disputa eleitoral acirra debate político no Senado
Valor Econômico
04/08/2006 10:56
BRASÍLIA - Com os ânimos acirrados pelo processo eleitoral, senadores governistas e da oposição ocuparam quase duas horas da sessão plenária de ontem com um bate-boca que começou com troca de ofensas pessoais, passou por ataques ao comportamento ético do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e se transformou num debate ideológico, a partir de críticas ao modelo de privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso.
Um dos diálogos mais tensos, embora cheio de ironias, ocorreu entre o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), e o senador Saturnino Braga (PT-RJ). O petista disse que, na gestão FHC, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) " financiou grupos privados para tomarem o patrimônio público a preços absolutamente aquém do valor real " .
Saturnino falou de " benesses para grupos privados " , " atentados ao patrimônio público " e defendeu a " retomada da ação do Estado no desenvolvimento " . Por fim, fez um prognóstico eleitoral: " Agora querem retornar. E não vão retornar, porque a consciência nacional vai falar mais forte do que tudo " .
O presidente do PSDB reagiu dizendo que o petista estava repetindo o mesmo discurso de 40 anos atrás e o desafiou a citar nomes. " Quem quer voltar, cara pálida? " , perguntou. " Os privatizadores, os mercadistas " , respondeu Saturnino. A reação de Tasso foi citar o programa do governo Lula de parceria público-privada (PPP).
" Por favor, senador Saturnino, exalte-se. PPP é um projeto de privatização? Meu querido, vossa excelência, que é tão fiel a seus compromissos originais, diga-me: PPP é um projeto de privatização? "
O cearense citou também o pedido enviado pelo governo ao Senado e aprovado a toque de caixa pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), em 48 horas, de autorização para ampliar a capacidade de endividamento da Transpetro em R$ 5,6 bilhões. O objetivo é que a subsidiária da Petrobras possa levantar empréstimo junto ao Fundo de Marinha Mercante (FMM) para financiar programa de modernização e expansão de sua frota. A Transpetro é presidida pelo ex-senador Sérgio Machado, do PMDB do Ceará, adversário de Tasso. A oposição suspeita de uso eleitoral.
" Esse é um projeto de privatização do risco, meu querido senador " , afirmou a Saturnino. Segundo o tucano, ninguém pode defender hoje o projeto de desenvolvimento que foi implantado no país nos anos 30.
Retomando o discurso da ética, o presidente do PSDB disse que os governistas estavam fazendo uma " verdadeira exaltação aos sanguessugueiros (parlamentares envolvidos no esquema de corrupção da venda superfaturada de ambulâncias a prefeituras) e mensaleiros (beneficiados pelo esquema do publicitário Marcos Valério) deste país " .
A turbulência no plenário começou quando a líder do PT, Ideli Salvatti (SC), criticou protesto feito na véspera pelo presidente do PFL, Jorge Bornhausen (SC), seu adversário político no Estado, contra suposta censura do programa de rádio " Voz do Brasil " . O programa teria deixando de transmitir ataques feitos pela oposição ao governo.
" Alguém que foi governador biônico e ministro da ditadura militar não tem moral para falar de censura " , afirmou Ideli. No discurso, ela homenageava o filme " Zuzu Angel " , sobre a estilista que teve o filho morto pela ditadura. Foi o mote para ela lembrar o passado de " violência, morte, tortura e censura " .
Bornhausen, que não estava no plenário, chegou na hora e acusou a adversária de " falar pelas costas " . O pefelista reafirmou seu discurso da véspera, no qual considerou " abuso " o fato de Lula ter defendido dignidade, honra e ética em viagem a Santa Catarina, seu Estado, " já que não tem autoridade moral, porque permitiu o valerioduto, o mensalão, os vampiros e os sanguessugas " . Esse teria sido o discurso censurado na " Voz do Brasil " , segundo Bornhausen.
Ideli pediu à Mesa direito de responder, mas o pedido foi negado pelo senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que presidia a sessão. Ela insistiu e o tucano também partiu para o ataque: " Vossa excelência não tem autoridade moral e política para questionar decisão da Mesa. "
(Raquel Ulhôa | Valor Econômico)
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